Por que Donald Trump venceu

ADVERTÊNCIA: o texto a seguir é uma opinião pessoal do autor Diogo Cysne sobre as eleições norte-americanas. Seu tom e algumas de suas ideias podem ser demasiado agressivas para leitores não acostumados com o tópico, portanto cautela é recomendada. Adicionalmente, alertamos para a presença de palavras de baixo calão, todas parcialmente censuradas.

De todas as razões apontadas para a “inesperada” vitória de Donald J. Trump na corrida presidencial dos EUA, eu gostaria de destacar a que, ao menos para mim, é a mais interessante. Vamos lá.

Quando Donald Trump anunciou sua candidatura nas primárias republicanas, a gargalhada foi universal. “Olha só que louco!” “É um maluco, mesmo.” “Rapaz, os republicanos não têm como descer mais baixo.” “Ô, picareta! Esse partido realmente aceita qualquer doido, né?” Etc. Pouco importava realmente que o candidato dissesse coisas escabrosas; o que importava mesmo era a graça, o circo, e todo mundo parecia muito feliz com a piada pronta que o partido republicano dera ao mundo. Donald J. Trump seria só mais um palhaço pra animar a festa e sumir quando os eventos principais começassem. Impossível, ora, alguém tão ridículo ir longe.

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Fast forward por alguns meses. Enquanto Hillary Clinton basicamente cheats her way to the top nas primárias democratas, Donald Trump coleciona vitórias acachapantes em todas do próprio partido. A palhaçada, ao que parece, vai continuar. Tudo bem, beleza. Melhor pra audiência da grande mídia e o ego das elites progressistas, dos mileniais cool e das celebridades bem vestidas do eixo Los Angeles-New York, que têm agora uma oportunidade óbvia de escancarar a própria grandeza de espírito contra o xenófobo-misógino-racista-alaranjado Donald J. F. Trump (o “F” é de “fucking“).

Não só um palhaço, diziam, mas um fracassado que conseguira falir cinco empresas (ou sete, ou dez, ou vinte, a depender do noticiário) e que herdara tudo que tinha do papai (ignore-se o fato de que ele transformara um milhão de dólares em alguns bilhões, apesar de todas as falências e baques com a justiça). Donald Trump era um palhaço que jamais iria longe, pois não poderia ir longe.

Fast forward. Donald e Hillary dividem o palco do primeiro debate nacional. A diferença de habilidades e competências é óbvia. Hillary é a rainha do universo, a gestora ultracompetente que conseguirá a paz mundial em três dias de mandato (ignore-se o fato, claro, de que fora sob sua guia tremendamente cega que o Oriente Médio caiu no fuzuê que é hoje). E Trump? Nem adianta falar dele. Basta rir. É um machista preconceituoso xenófobo homofóbico que não consegue fazer nem um cassino ganhar dinheiro, um fracassado risível que perdeu tudo que o tinha trocentas vezes nos anos 90 e que, por algum motivo, continua de pé, lutando, batalhando, pagando mico. É muita vontade de ser motivo de chacota, só pode.

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FF. Depois de três debates desgastantes, o mundo pode descansar tranquilo sabendo que Hillary ganhará de lavada. O The New York Times, que tudo vê e tudo sabe, dá-lhe chance de 91%. O Salon (ou Huffington Post, ou Buzzfeed, não sei ao certo; é difícil distinguir as várias farinhas do mesmo saco) é mais enfático: 99% e olhe lá! Trump, o dedador-de-b*cetas, devorador de mulçumanos e torturador de homossexuais, é uma piada-sem-graça que nunca perderá a graça, um nome relevante apenas para os talk shows noturnos, que também tudo veem e tudo sabem.

A vitória de Hillary, pois, é a vitória do feminismo, a vitória do progressismo e a prova de que a marcha da História, este fenômeno que só os progressistas dominam, é inexoravelmente pelas minorias oprimidas tomadoras-de-smoochies e exigentes de safe spaces nos campi universitários ou, sei lá, nos prédios das indústrias de alta tecnologia em que trabalham.

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Fast forward para hoje. 20 de janeiro. Donald Trump faz seu discurso de inauguração numa cerimônia a que nenhuma celebridade de respeito (ou pelo menos de alta notoriedade) tem estômago para comparecer. O mundo ainda está catatônico com a vitória do palhaço. A piada-sem-graça criou dentes e mordeu o piadista. Não era para ser assim. Não podia ser assim. Então, diabos, como é que terminou assim??

Acho que vocês já sabem a resposta. O grande fracasso dos progressistas foi justo naquilo em que eles supostamente tinham mais habilidade: o marketing. A construção de narrativas. O framing narrativo, para ser exato: ao pintar constantemente Donald Trump como alguém tão ridículo que devia ser apenas objeto de troça, como um fracassado que não sabe o seu lugar na ordem das coisas, a esquerda transformou este bilionário mulherengo em um underdog.

Sabem aquele protagonista por quem ninguém dá um tostão furado, que passa a história inteira sendo massacrado e humilhado para, no desfecho, se o autor lhe for gracioso, dar a volta por cima e triunfar? Pois bem, este é Donald Trump—ou, pelo menos, este se tornou Donald Trump depois da intensa, quase monomaníaca campanha de difamação que todos os cidadãos “de respeito” da sociedade norte-americana – todos os banqueiros, todos os políticos, todos os bilionários cool e celebridades atraentes – fizeram contra ele.

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Donald J. Trump, um ricaço que por quase nenhum prisma teve uma vida “difícil”, se transformou no herói do povo, enquanto Hillary Clinton, desavisada, virou tudo aquilo que o homem comum mais detesta: uma política cínica que nunca “trabalhou” na vida; que teve a prosperidade delineada logo no nascimento; que nunca “faliu” empresas ou teve que cobrir os prejuízos dos seus investimentos com o próprio bolso; que nunca passou vergonha em nível nacional nem viu as elites belas, esclarecidas, iluminadas do país se voltarem em peso contra sua figura, numa campanha midiática e política de incessante difamação, humilhação e escárnio.

Ao alardear as falências de Donald Trump, a mídia inadvertidamente mostrou ao povo que, como diria o acadêmico Nassim Nicholas Taleb, o magnata tinha “skin in the game“; ou seja, ao contrário de Hillary, Donald Trump sofreu na pele as consequências de todo o seu fracasso. Como um típico empreendedor à la Americana, Trump deve que dar a cara aos tapas em cada empreitada que desejou realizar. Hillary não. A queridinha da política democrata, equivalente nos EUA ao que um pensionista militar ou do judiciário é no Brasil, jamais sofreu nada, jamais correu risco de nada.

Trump perde a eleição e vira chacota para todo o sempre. Hillary perde a eleição e… bem, continua sendo Hillary: a linda, bela, riquíssima e gloriosa esquerdista injustiçada por todas as forças machistas da humanidade. Cargos públicos e espaço na mídia nunca lhe faltarão. A Fundação Clinton que o diga!

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Assim, quando Donald Trump de fato venceu, o “homem comum” sentiu a mesma coisa que quando a Estrela da Morte explodiu no fim de “Uma Nova Esperança”, ou quando o ringue final soou na luta entre Rocky Balboa e Apolo Creed: o underdog havia triunfado. As elites belas e bem nascidas não são as únicas que dão as cartas; vez ou outra, o pequenino eternamente pisoteado pode virar o jogo e terminar com a mocinha—e, de quebra, ter uma linda filha com ela.

Donald Trump venceu porque as elites lhe entregaram de bandeja a narrativa mais atraente de todas: a vitória de Davi sobre Golias. Resta agora saber se, com o choque de realidade, os bullies da beautiful people aprenderão a lição e, quem sabe, serão menos arrogantes no futuro. Menos assholes, sabe. No entanto, considerando o noticiário que ainda se publica sobre o magnata e alguns discursos de atrizes imensamente ricas que vez ou outra protestam contra a natureza machista de Hollywood, talvez seja pedir demais desse povo.

Quem só conheceu vitórias na vida, afinal, raramente calça as sandálias da humildade.

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